Mariene de Castro se desloca, sem sair do eixo nordestino, com balaio de amor, xotes e baiões do show 'Cantadeira'

Mariene de Castro estreia o show 'Cantadeira' no Circo Voador, no Rio de Janeiro (RJ), antes de lançar o álbum audiovisual gravado em Castro Alves (BA) Pati B...

Mariene de Castro se desloca, sem sair do eixo nordestino, com balaio de amor, xotes e baiões do show 'Cantadeira'
Mariene de Castro se desloca, sem sair do eixo nordestino, com balaio de amor, xotes e baiões do show 'Cantadeira' (Foto: Reprodução)

Mariene de Castro estreia o show 'Cantadeira' no Circo Voador, no Rio de Janeiro (RJ), antes de lançar o álbum audiovisual gravado em Castro Alves (BA) Pati Burlamaqui / Divulgação Circo Voador ♫ CRÍTICA DE SHOW Título: “Cantadeira” Artista: Mariene de Castro Data e local: 3 de outubro de 2026 no Circo Voador (Rio de Janeiro, RJ) Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ Cantora soteropolitana de voz incandescente, associada ao samba do Recôncavo Baiano, Mariene de Castro se desloca no show “Cantadeira” sem sair do eixo nordestino. Em “Cantadeira”, show que estreou na noite de sábado, 3 de outubro, em apresentação que encheu o Circo Voador (RJ), na cidade do Rio de Janeiro (RJ), a cantora baiana carrega no palco um balaio de amor em que harmoniza baiões e xotes românticos de temperatura mais amena. Mariene reproduziu no palco do Circo Voador o show que gravou no período junino em Castro Alves (BA), município situado na região do Recôncavo Baiano, para gerar álbum audiovisual ainda inédito nas plataformas de áudio e vídeo. O show “Cantadeira” foi gravado em casa de taipa preparada para o registro audiovisual, feito durante o Arraiá do Poeta, evento junino da cidade baiana. No Circo Voador, o receptivo público carioca viu alguns takes da gravação entre as imagens projetadas no telão durante todo o show, feito pela cantora sob direção musical do arranjador e multi-instrumentista Fábio Cunha. “Cantadeira” é show de roteiro inteiramente inédito na trajetória de Mariene de Castro nos palcos. Fiel ao conceito do show, calcado na alma musical forrozeira do sertão nordestino, a cantora ignorou os sambas de roda do aclamado primeiro álbum, “Santo de casa” (2004), e as saudações aos orixás, recorrentes no repertório da artista. Mas soltou “Foguete” (Roque Ferreira e J. Velloso, 2005) – música que tomou para si desde que a gravou no álbum “Tabaroinha” (2012) – no fim do show, encerrado em clima de festa junina, com direito à aliciante “Olha pro céu” (Luiz Gonzaga e José Fernandes, 1951), petardo infalível do cancioneiro junino. Com figurino brejeiro de cores vivas, Mariene de Castro bradou com o orgulho a nordestinidade e a resistência que pautam o show “Cantadeira”. “... A sanfona ainda não desafinou / A minha voz, vocês reparem eu cantando, / Que é a mesma voz de quando meu reinado começou”, cantou Mariene, dando o recado já na abertura do show, aberto com o baião “Hora do adeus” (Luiz Gonzaga e Onildo Almeida, 1974). Em “Cantadeira”, Mariene de Castro ouve o toque da sanfona a chamar e atende o chamado. No show, o sanfoneiro é Gel Barbosa e, na apresentação do Circo Voador, o acordeonista baiano Cicinho de Assis entrou em cena no meio do show para reforçar a presença da sanfona. Mariene de Castro encadeia xotes românticos no roteiro do show 'Cantadeira' Pati Burlamaqui / Divulgação Circo Voador Sanfona, zabumba, xote, maracatu – “Filhas do mar” (Flávia Wenceslau, 2010), música gravada por Mariene no álbum “Tabaroinha” (2012) – e baião... Tudo isso coube no matulão amealhado por Mariene de Castro para o show “Cantadeira”, cujo roteiro foi pavimentado com músicas como “Pau-de-arara” (Luiz Gonzaga e Guio de Moraes, 1952), “Filho do dono” (Petrúcio Amorim, 1996) – sucesso do repertório de Flávio José, cantor influente dentro da nação musical nordestina, de cuja discografia Mariene também pescou “Mensageiro beija-flor” (Nanado Alves, 1996) – e o xote “Mundança” (Flávio Leandro e Elmo Oliveira, 2023). A cadência do xote foi dominante na primeira parte do show “Cantadeira”. Foi quando Mariene de Castro cantou músicas como “A natureza das coisas” (2004) – um dos emblemas do cancioneiro do compositor Accioly Neto (1950 – 2000), de quem a artista também recordou “Lembrança de um beijo” (1994) – e “Se tu quiser” (Xico Bizerra, 1995), xote regravado por Elba Ramalho no álbum “Balaio de amor” (2009). Outros xotes – como “Caxixi (Bonitinha)” (Roque Ferreira, 2020) e “Preciso de teu sorriso” (João Leocádio da Silva e Enok Dantas, 2002), este do repertório de Dominguinhos (1941 – 2013) – deixaram o show “Cantadeira” com tom meio linear na primeira metade. A temperatura esquentou e o clima pesou – no melhor dos sentidos – no número em que, após reviver “Cajuína” (Caetano Veloso, 1979) com a zabumba bem marcada no arranjo, Mariene de Castro cantou “Beradéro” (Chico César, 1991) sobre percussão abrasiva e tom noise. Foi uma virada momentânea de chave no show. Mariene de Castro termina o show 'Cantadeira' em clima junino com músicas como 'Foguete' e 'Olha pro céu' Pati Burlamaqui / Divulgação Circo Voador Após os dois números solo do sanfoneiro Cicinho de Assis, a introspecção deu o tom do canto de Mariene ao moldar “Retrato da vida” (Djavan e Dominguinhos, 1998), música ao qual se seguiram “De volta pro aconchego” (Dominguinhos e Nando Cordel, 1985) – canção para sempre associada ao canto resistente de Elba Ramalho – e “Estrada de Canindé” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950), uma das incontáveis obras-primas do cancioneiro enraizado no sertão nordestino ( no caso, romantizando a vida simples do sertanejo). Na sequência, o baião “Anjo querubim” (Petrúcio Amorim, 1998) ratificou o romantismo dominante no balaio de amor que Mariene de Castro trouxe da Bahia para o Rio de Janeiro. Única lembrança do seminal álbum “Abre caminho” (2004), “Cantiga de cangaceiro” (Roque Ferreira, 2004) foi outra virada de chave que preparou o clima para que Mariene de Castro mostrasse toda a habitual força cênica – um tanto diluída na cadência dos xotes românticos – com o canto de “Quebradeira de coco” (Roque Ferreira, 2004), grande momento do show. Enfim, mesmo que abrande a fervura do canto de Mariene de Castro pela natureza serena de boa parte do repertório, o show “Cantadeira” representa uma virada de página na trajetória dessa grande cantora do Brasil. Um movimento em direção a um outro universo musical da nação nordestina, símbolo brasileiro de resistência. Mariene de Castro usa figurino brejeiro de cores vivas no show 'Cantadeira' Mauro Ferreira / g1