Renato Braz se eleva em álbum que reúne Chico Buarque, Gilberto Gil e Milton Nascimento
20/12/2018 13:27 em Música

Mauro Ferreira

 

Foto: Arquivo pessoal de Renato Braz 

Um dos maiores cantores do Brasil, Renato Braz se eleva ainda mais com Canto guerreiro – Levantados do chão, álbum comemorativo dos 50 anos de vida deste extraordinário intérprete paulistano. Inclusive pela proeza de reunir, como compositores e cantores, três dos maiores ícones da MPB – Chico Buarque, Gilberto Gil e Milton Nascimento – neste disco recém-lançado em CD e em edição física. Três admiradores do canto preciso de Braz.

Chico e Milton se juntam em gravação de Cálice (1973), parceria de Chico com Gil, que embute sagaz citação instrumental do Fado tropical (Chico Buarque e Ruy Guerra, 1973), acentuando a atualidade política da letra.

Além de engrossarem as vozes de Cálice, ao lado de outros intérpretes, Chico e Milton também figuram no medley que linka La quête (1968) e Sonho impossível (1972), versões em francês e em português, respectivamente, da canção The impossible dream (Joe Darion e Mitch Leigh, 1965), tema mais conhecido da trilha sonora do musical norte-americano O homem de La Mancha (1975).

Chico divide com Braz a interpretação dos versos franceses escritos pelo belga Jacques Brel (1929 – 1978). Milton é ouvido na versão brasileira escrita para a montagem brasileira de 1972, mas popularizada na voz de Maria Bethânia.

Já Gilberto Gil ajuda, com a voz e o violão singular, Braz a recontar O fim da história (1992), uma das músicas mais obscuras do cancioneiro autoral do compositor baiano, também presente no disco como autor de Xote (Gilberto Gil e Rodolfo Stroeter, 1998).

As presenças desses ídolos no álbum soam naturais porque Braz é herdeiro e propagador das tradições da MPB formatada na era dos festivais da década de 1960, embora pertença a geração bem posterior. Braz debutou no mercado fonográfico em 1996 quando a MPB já estava sendo posta à margem desse mercado.

Álbum produzido por Carolina Gouveia sob direção musical de Mario Gil e do próprio Renato Braz, Canto guerreiro – Levantados do chão foi batizado com os nomes de duas das 17 composições do repertório que, ao longo de quase 70 minutos, apresenta regravações de músicas como Pesadelo (Maurício Pacheco e Paulo César Pinheiro, 1972) e Depressa a vida passa (Fred Martins e Marcelo Diniz, 2017).

Levantados do chão (1997) é, das quatro parcerias de Chico Buarque com Milton Nascimento, a menos abordada. Já Canto guerreiro (Luciana Rabello e Paulo César Pinheiro, 2014) é samba que entra na roda como tema de capoeira.

E por falar em samba, Longe de casa eu choro (Eduardo Gudin e Paulo Vanzolini, 2002) é beleza extraída da roda paulistana.

No mapa genealógico do canto do Brasil, Renato Braz não raro soa como um irmão, ou a versão masculina, de Mônica Salmaso, outra voz elevada nesse universo da MPB. O que legitima a inclusão no álbum de música recente de Guinga (Meu pai, de 2017) e de tema antigo de Dori Caymmi com Paulo César Pinheiro, Desafio (1980).

Como Salmaso, que bem poderia ter gravado a inédita (e belíssima) Condão (Breno Ruiz e Paulo César Pinheiro, 2017), Renato Braz sabe levantar a voz guerreira, afinada e (sempre) bem usada, para afirmar rico universo de compositores e músicas que pulsa à margem do mercadão que movimenta a indústria pop do Brasil sertanejo.

Portal G1

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