Falecida há 30 anos, cantora Nara Leão tem relevância reforçada em livro de tom acadêmico
04/01/2019 08:37 em Arte e Literatura

Mauro Ferreira

Morta há 30 anos, a cantora Nara Leão (19 de janeiro de 1942 – 7 de junho de 1989) tem vida e obra perfiladas em livro que, a despeito do tom acadêmico, conta com atrativos para seduzir os admiradores dessa artista que soube se expressar ativamente através da discografia que construiu entre 1964 e 1989.

O livro Nara Leão – Trajetória, engajamento e movimentos musicais (editora Letra e voz) foi escrito pelo historiador mineiro Daniel Lopes Saraiva sem a intenção de se impor como biografia da cantora.

Por mais que o autor faça a exposição da trajetória profissional da artista na narrativa cronológica do primeiro dos três capítulos do livro, sem acrescentar sequer um dado relevante ao que já foi contado em biografias de Nara, o foco de Saraiva repousa sobretudo na tentativa bem-sucedida de defender tese sobre a ideologia propagada pela artista na vida e na música.

Com a ajuda de depoimentos inéditos como o de Roberto Menescal e com recursos típicos de dissertações de mestrado, origem do livro, o historiador discute – entre exposições de gráficos e numerosas citações de fontes bibliográficas – a memória oficial construída em torno de Nara Leão.

Nesse campo, a defesa da tese de Saraiva corrobora o senso comum que aponta Nara como uma das mais relevantes cantoras do Brasil pela escolha do repertório e pelo canto livre de amarras estéticas.

A ruptura radical com a Bossa Nova a partir do segundo álbum da cantora, Opinião de Nara (1964), é exemplo da liberdade artística dessa cantora que seguia a própria cabeça, revelando compositores e anunciando tendências (como os discos de duetos) sem seguir as modas.

O engajamento destacado no título do livro é assunto recorrente no livro porque, ao se opor ao regime militar instaurado no Brasil em 1964, Nara Leão se tornou cantora de esquerda, tomando partido do povo a que deu voz nos discos através da gravação de sambas de compositores associados ao morro.

A guinada da menina rica da abastada zona sul carioca – nascida em Vitória (ES) mas criada no Rio de Janeiro (RJ) desde a primeira infância – ao subir o morro influenciou cantoras do porte de Elizeth Cardoso (1920 – 1990) e da contemporânea rival Elis Regina (1945 – 1982).

O livro mostra como Nara Leão sempre foi do contra. Quando a cantora gravou álbum duplo com o cancioneiro fundamental da Bossa Nova em 1971, no exílio em Paris, o barquinho já afundava nas águas revoltas do Brasil pop tropicalista.

Em 1978, mandou a elite da MPB para o inferno ao dedicar álbum às canções marginalizadas (por essa elite) de Roberto Carlos & Erasmo Carlos. Em 1981, teve a ideia de fazer álbum somente com músicas letradas pelo compositor e poeta cearense Fausto Nilo.

Somente não concretizou o disco porque foi demovida da ideia pelo próprio Fausto Nilo, na época inseguro de ganhar tamanho aval dessa cantora que – como enfatiza o historiador ao longo do livro – sempre simbolizou uma grife, um atestado de qualidade na música do Brasil, sendo ouvida com atenção pelos críticos (daí a assumida insegurança de Nilo).

Se o engajamento propriamente dito dessa libertária cantora-grife é objeto de análise no segundo capítulo, a discografia visionária da artista é o assunto do terceiro e último capítulo.

Enfim, Nara Leão parece ter criado, sozinha, um movimento musical particular em trajetória que – analisada 30 anos após a precoce saída de cena da cantora em 1989 em virtude de tumor no cérebro diagnosticado dez anos antes – resulta luminosa. E essa luz há sempre de clarear tempos sombrios. (Cotação: * * * *)

 

Portal G1

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