Adriana Calcanhotto tem obra desconstruída com solidez no EP 'Nada ficou no lugar 2'
20/01/2019 18:30 em Música

Mauro Ferreira

 

Apresentado em 21 de dezembro com oscilante EP com seis regravações do cancioneiro autoral de Adriana Calcanhotto, o projeto Nada ficou no lugar resulta mais coeso no segundo dos três volumes, lançado anteontem, 18 de janeiro, com mais seis fonogramas.

Do elenco arregimentado com curadoria de Andrea Franco e DJ Zé Pedro, somente Alice Caymmi decepciona com abordagem inadequada de Metade (1994), uma daquelas canções radiofônicas que Calcanhotto compõe com vocação para ser tema de novela. A gravação de Alice Caymmi tinha tudo para ser impactante, já que trata-se do reencontro da cantora carioca com o produtor Diogo Strausz, arquiteto do segundo e melhor álbum da artista, Rainha dos raios (2014).

Mas o que se ouve é modernoso. Strausz pilota teclados e programações em gravação que insere Metade em universo eletrônico de sons sintetizados que esboça dramaticidade épica que, longe de elevar a canção a outro patamar, dilui a melancolia e a desorientação entranhadas nos versos de Calcanhotto. Alice repete mecanicamente o refrão de Metade.

 
Capa do EP 'Nada ficou no lugar parte 2' — Foto: Murilo AlvessoCapa do EP 'Nada ficou no lugar parte 2' — Foto: Murilo AlvessoCapa do EP 'Nada ficou no lugar parte 2' — Foto: Murilo Alvesso

Em contrapartida, Mãeana – nome artístico adotado por Ana Cláudia Lomelino em carreira solo – expõe com delicadeza poética, no registro de O amor me escolheu (1997), as idas e vindas de homem guiado pela voz do amor em gravação (a melhor do EP) conduzida pela guitarra, a percussão e a programação de Bem Gil.

Escrita sob ótica masculina por Calcanhotto e lançada por Paulo Ricardo em disco que tentou sedimentar o vocalista do grupo RPM como o cantor pop romântico dos anos 1990, a canção O amor me escolheununca foi gravada por Calcanhotto e ressurge bonita e suave na voz feminina de Lomelino, intérprete em contínua evolução. 

Já o rapper baiano Baco Exu do Blues redefine Senhas (1992) com contundência, amplificando o inconformismo com os padrões pré-estabelecidos do bom gosto sob a cama instrumental armada por DKVPZ. Produzida pelo próprio Baco, a regravação de Senhas cumpre plenamente o objetivo do projeto de desconstruir a música de Calcanhotto para reerguê-la sob outro prisma.

 
Adriana Calcanhotto avaliza o projeto com recriações do cancioneiro da compositora gaúcha — Foto: Murilo Alvesso / DivulgaçãoAdriana Calcanhotto avaliza o projeto com recriações do cancioneiro da compositora gaúcha — Foto: Murilo Alvesso / DivulgaçãoAdriana Calcanhotto avaliza o projeto com recriações do cancioneiro da compositora gaúcha — Foto: Murilo Alvesso / Divulgação

Com as vozes de OZ e Raoni, o grupo baiano Àttooxxá também consegue atualizar com pegada Toda sexta-feira (1996), samba que celebra a festa da cultura negra que anima Salvador (BA) no fim de semana. A composição foi dada a Belô Velloso por Calcanhotto e nunca registrada em disco na voz da autora.

Illy também cai bem no samba. No caso, com a bossa do violão de Cezar Mendes e a percussão de Moreno Veloso, produtor da gravação que muda o clima da canção Pelos ares (Adriana Calcanhotto e Antonio Cicero, 2002).

Ainda na roda do samba, Larissa Luz evoca intencionalmente Elza Soares ao dar voz a Vai saber (2006) com arranjo e programação do Ubunto, deixando no ar a pergunta: Larissa também quer soar como Elza fora da cena do musical de teatro em que interpreta a cantora?

Enfim, com cinco acertos e um erro (o de Alice Caymmi), o segundo EP do projeto Nada ficou no lugar tem saldo positivo porque quase todo o elenco põe algo relevante no lugar ao desconstruir com solidez o cancioneiro modernista de Adriana Calcanhotto. (Cotação: * * * *)

 

Portal G1

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!