Crédito da imagem: capa da caixa Gilberto Gil – Anos 70 ao vivo e dos CDs da caixa

Gravações de vívidos shows de 1972 e 1973 flagram Gil bem, 'back in' Brasil

Mauro Ferreira

Quando desembarcou em 14 de janeiro de 1972 no aeroporto do Galeão, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), vindo do exílio londrino na roqueira Inglaterra, Gilberto Gil planejava fazer shows no Brasil, gravar um disco com músicas inéditas para o mercado nacional e voltar para Londres para concluir o segundo álbum em inglês que já começara a gravar. Os shows da turnê Gilberto Gil em concerto foram feitos. Mas não houve volta para o exílio e tampouco a finalização do disco em inglês cujo repertório traria a música inédita Brand new dream.

Essa composição de Gil somente ganharia o primeiro registro fonográfico na coletânea dupla O Viramundo ao vivo – 1972 / 1976, produzida pelo pesquisador musical Marcelo Fróes para a caixa Ensaio geral (1998) com reedições da fase inicial da obra do artista baiano. Na compilação, Brand new dream aparece na gravação ao vivo captada no show feito pelo cantor em março de 1972 no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Em Gilberto Gil – Anos 70 ao vivo, caixa com três CDs duplos que trazem os registros integrais de shows feitos por Gil nas cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP) entre 1972 e 1973, Brand new dream reaparece na gravação ao vivo captada no Teatro João Caetano em 14 de março de 1972, em outra apresentação do show da turnê Gilberto Gil em concerto.

O registro dessa apresentação ocupa Gilberto Gil ao vivo – Back in Bahia [1972], primeiro dos três CDs duplos da caixa produzida pelo mesmo Marcelo Fróes, sob a supervisão de Bem Gil, e posta nas lojas neste mês de outubro de 2017 em edição do Selo Discobertas. Nesse show, Gil apresentou em primeira mão títulos então inéditos do cancioneiro autoral do compositor, casos de Back in Bahia, de Expresso 2222 e de Oriente, músicas que Gil somente registraria no álbum, intitulado Expresso 2222, que começaria a gravar na segunda quinzena de abril daquele ano de 1972 no estúdio Eldorado, na cidade de São Paulo (SP).

Nesse show, influenciado pelo rock (que já dava o tom em parte da obra composta por Gil no fim da década de 1960) e pelo jazz (que o cantor ouvira com mais intensidade no exílio em Londres), Gil se permitiu a arte do improviso ao apresentar músicas como O sonho acabou (1972) com a banda formada por Bruce Henry (baixo), Lanny Gordin (guitarra), Perna Fróes (teclados) e Tutty Moreno (bateria), além do próprio Gil no violão suingado e na guitarra. As abordagens das músicas são longas. Samba que marcara a despedida de Gil do Brasil, Aquele abraço (1969) ganha uma pegada de blues no registro que roça os 19 minutos.

Com roteiro diferente do show ora perpetuado no álbum Back in Bahia [1972], a apresentação registrada no segundo CD duplo da caixa, Gilberto Gil ao vivo – Umeboshi [1973], já mostra o cantor em 1973 com o público ampliado por conta do sucesso do álbum Expresso 2222 (1972) e com o repertório renovado. O show eternizado no CD foi captado ao longo da temporada feita por Gil a partir de 10 de abril daquele ano de 1973 no Teatro Opinião, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

A banda já era outra. O baterista Tutty Moreno era o único músico remanescente da banda formada no ano anterior para o show da turnê Gilberto Gil em concerto. Com o toque dos teclados de Aloísio Milanez, da percussão de Chiquinho Azevedo e do baixo de Rubão Sabino, Gil – sempre munido do violão magistral e da guitarra – apresentou músicas então inéditas como Preciso aprender a só ser, samba-canção que seria lançado na voz da cantora Maria Bethânia, além do xote Eu só quero um xodó (Dominguinhos e Anastácia, 1973), gravado por Gil em compacto editado com retumbante sucesso popular.

Esse show intitulado Umeboshi – nome de outra música inédita e autoral do roteiro apresentado em cena por Gil com a mesma liberdade de tempo usufruída no show anterior de 1972 – gerou álbum duplo gravado em estúdio naquele mês de abril de 1973, mas não lançado pelo cantor. Este disco duplo somente seria editado em 1998, dentro da caixa Ensaio geral, com o título de Cidade do Salvador. Mas a gravação ao vivo do show permanecia inédita.

Menos importante do ponto de vista documental, já que disponível na web, é o registro integral do show feito por Gil em 20 de maio de 1973 na Universidade de São Paulo (USP). O terceiro CD duplo da caixa, Gilberto Gil ao vivo – USP [1973], traz o primeiro registro oficial desse show de voz & violão em que Gil canta duas vezes para os estudantes paulistanos, em sala de aula, a recente e já censurada Cálice, parceria com Chico Buarque lançada (e calada) no evento Phono 73.

Dos três shows da caixa, o da USP é o mais próximo do formato convencional de uma apresentação, sem espaço para improvisos jazzísticos. Tanto que Gil encadeia 27 músicas – contando a reprise de Cálice ao fim da apresentação – nos 25 números do show. O roteiro foi montado com mix de sucessos dos anos 1960, como Procissão (1965) e Domingo no parque (1967), com músicas do álbum Expresso 2222 e com composições inéditas apresentadas no show Umeboshi.

Com boa qualidade sonora, sobretudo se levados em conta os padrões técnicos das captações de shows na época, as gravações ao vivo dos três CDs flagram Gilberto Gil em momento de transição, de retomada de território e de efervescência criativa. Enfim, com a edição da caixa Gilberto Gil – Anos 70 ao vivo, o selo Discobertas cumpre exemplarmente a função de preencher lacunas e iluminar recantos escuros da memória fonográfica brasileira. (Cotação: * * * * 1/2)

G1
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/gravacoes-de-vividos-shows-de-1972-e-1973-flagram-gil-bem-back-brasil.html

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