Crédito da imagem: Marcos Valle no palco do Blue Note Rio em foto de Mauro Ferreira

Bossa da obra de Valle se renova com toque da carioca Orquestra Atlântica

Mauro Ferreira

No embalo da consagração mundial do compositor carioca Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994), a partir de 1963, o conterrâneo Marcos Valle exportou o próprio samba de verão para o mundo como legítimo discípulo da bossa nova formatada ao longo dos anos 1950. Mas o fato é que o cancioneiro de Valle desde sempre extrapolou o arco rítmico, harmônico e poético da bossa.

Não por acaso, um dos primeiros e maiores standards do compositor – hit contemporâneo do emblemático Samba de verão (1964) – é a doída canção romântica Preciso aprender a ser só (1964), composta com o irmão Paulo Sérgio Valle e lançada em disco na voz da cantora Sylvia Telles (1934 – 1966) após ser apresentada em show por Elis Regina (1945 – 1982). Também não por acaso, a obra de Valle ganhou contorno pop na virada dos anos 1960 para os 1970, abarcando soul, funk, ritmos nordestinos, rock progressivo, psicodelia e – já na década de 1980 – tecnopop.

No show apresentado por Valle no Blue Note Rio com a Orquestra Atlântica, em dois sábados consecutivos, a obra do compositor foi filtrada pelo suingue dessa big-band carioca surgida em 2012 com o apadrinhamento musical do artista. Os arranjos sofisticados do trompetista Jessé Sadoc, integrante da orquestra, remodelaram os caminhos harmônicos de temas instrumentais como Esperando o Messias (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1970).

Ao piano, integrado com a orquestra no toque do instrumento que cabe a Glauton Campello na formação da Atlântica, Valle também cantou, dando voz ao já mencionado Samba de verão e caindo no suingue de outro samba, Vim dizer que sim. Esta parceria de Valle com Celso Fonseca – gravada em Página central(2009), álbum que reuniu os dois artistas com repertório dedicado à afinada parceria dos compositores – foi apresentada em clima de gafieira jazzy. Na sequência. Azimuth (Marcos Valle e Novelli, 1969) reiterou a opulência sem excessos dos arranjos de Sadoc para a obra de Valle.

Sem Valle, a Orquestra Atlântica tocou temas instrumentais e autorais do primeiro álbum, lançado em 2015. Para a maior parte do público da sessão das 21h da noite de 30 de setembro, as execuções de músicas como Passo o ponto (Jorge Helder) e Passeio público (Jessé Sadoc) foram aperitivos para esperar a volta de Valle ao palco da recém-aberta casa carioca.

Ao retornar, Valle chamou ao palco a cantora Patrícia Alví, solista segura de Black is beautiful (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1971), petardo soul disparado com orgulho negro por Elis, voz recorrente na obra de Valle. Mais para o fim, o toque de Estrelar (Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Leon Ware, 1983) iluminou o principal hit da fase mais pop do cancioneiro do compositor.

No bis, Os grilos (Crickets sings for Anamaria) (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1965), samba lançado há 52 anos pelo grupo Os Catedráticos e há 50 pelo autor, confirmou a perene jovialidade da obra de Marcos Valle. Em qualquer ritmo, a bossa do compositor continua sempre nova. (Cotação: * * * *)

G1
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/bossa-da-obra-de-valle-se-renova-com-toque-da-carioca-orquestra-atlantica.html

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