Crédito da imagem: Capa do livro Milton Nascimento – Letras, histórias e canções. Milton Nascimento em foto de Nathalia Pacheco

Livro alinha letras (e histórias) de Milton, deus da MPB que faz 75 anos

Mauro Ferreira

Entre as músicas mais marcantes e/ou populares do cancioneiro original de Milton Nascimento, somente quatro – Canção do sal (1966), Maria, minha fé (1967) e, sobretudo, Morro velho (1967) e Coração de estudante (Wagner Tiso e Milton Nascimento, 1983) – têm letras escritas pelo compositor carioca. Contudo, como ressalta o parceiro e poeta fluminense Ronaldo Bastos em texto publicado na contracapa do livro Milton Nascimento – Letras, histórias e canções, Bituca – apelido pelo qual Milton é conhecido no meio musical – é também o letrista de todas as canções que compôs com versos de parceiros.

Parceiro de Milton em sucessos como Cais (1972), Bastos é perspicaz ao compreender que, ao confiar melodias para serem letradas por outros compositores, o carioca mais mineiro do Brasil não deixa de ser o autor/mentor de letras que, invariavelmente, versam sobre o universo particular do próprio Milton. Que sabe que poeta chamar para compartilhar a criação de cada canção, como também enfatiza outro parceiro ilustre de Milton, o mineiro Fernando Brant (1946 – 2015), em texto também publicado na contracapa do livro recém-posto nas livrarias pela editora Master Books.

Organizado por Danilo Nuha, Milton Nascimento – Letras, histórias e canções é songbook que publica somente as letras escritas por Milton, quase todas para melodias criadas por outros compositores. Há fotos raras desse gigante da música brasileira – cujos 75 anos de vida serão festejados na próxima quinta-feira, 26 de outubro de 2017 – que não se enquadra em nenhum rótulo da MPB. Gigante que cresceu aos olhos e ouvidos do público há 50 anos, mais precisamente na noite de 19 de outubro de 1967, quando defendeu Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brant, 1967) – marco inicial de obra que já tinha merecido eventuais registros fonográficos desde 1964 – no palco armado no ginásio carioca conhecido como Maracanãzinho para a exibição da primeira das sete edições do Festival Internacional da Canção (FIC), veiculadas pela TV Globo.

Ao longo desses 50 anos, Milton fez História e fez canções (melodias, em geral) que o elevaram instantaneamente ao patamar de gênio da MPB pela construção de obra impossível de ser rotulada. No livro, há histórias que envolvem a gênese de canções, caso da paixão imediata de Milton pela melodia de Anima (1981), o que levou o futuro parceiro Zé Renato a desconvidar Chico Buarque para fazer a letra da música que acabaria dando título ao álbum lançado por Milton em 1982. Não raro, essas histórias são envolvidas em alguma aura mística, até natural em obra de caráter transcendental, por vezes até sacro.

Milton escreveu poucas letras até meados dos anos 1980. Quando passou a escrever mais letras para melodias de outros compositores, como aconteceu de forma recorrente no álbum Encontros e despedidas (1985), a obra autoral do mestre – um inovador das melodias, harmonias e ritmos, como frisa Fernando Brant logo no início do texto publicado na contracapa – começou sintomaticamente a perder o vigor.

Até pelo fato de trabalhar com Milton, o autor do livro, Danilo Nuha, expõe visão reverente e romantizada da obra e do artista. Em contrapartida, pelo acesso irrestrito a Milton, conseguiu extrair depoimentos do compositor sobre grande parte das canções – no limite da intimidade consentida pelo dono da obra... – e teve autorização para publicação de fotos expressivas de várias fases da vida de Milton, da infância aos tempos atuais. Nesse sentido, a edição roça o acabamento de um livro de arte. Mas a arte está sobretudo nas canções, algumas ainda pouco ouvidas, caso de Segue em paz, primeira e até o momento única parceria de Milton com o compositor e guitarrista mineiro Toninho Horta. Feita entre 1968 e 1970, a música somente ganhou o primeiro registro fonográfico em 2005, na voz da cantora Paula Santoro.

Ao contar as histórias de algumas músicas do álbum Gil e Milton (2000), sobretudo a de Duas sanfonas (Gilberto Gil e Milton Nascimento, 2000), o livro narra um pouco da relação de Gilberto Gil com Milton Nascimento. Gil presenciou o momento em que Milton mostrou a seminal Canção do sal a Elis Regina (1945 – 1982), antenada cantora que apresentou a obra de Milton ao Brasil ao gravar essa canção no álbum que lançou em 1966. Mas os dois compositores somente foram estreitar os laços nos anos 1990, o que culminou com a edição em 2000 do álbum em conjunto Gil e Milton, disco que, apesar do caráter histórico, resultou aquém dos históricos dos respectivos compositores.

Indicado somente para admiradores fervorosos da obra de Bituca, o livro Milton Nascimento – Letras, histórias e canções endeusa a obra do compositor e o próprio artista. Pecado facilmente perdoável, já que Milton Nascimento é mesmo um deus com crença e fé na deusa música. (Cotação: * * * 1/2)

G1
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/livro-alinha-letras-e-historias-de-milton-deus-da-mpb-que-faz-75-anos.html

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