Crédito da imagem: capa do livro Pra que mentir – Vadico, Noel Rosa e o samba

Biografia reconstitui (alguns) passos de Vadico, o maior parceiro de Noel

Mauro Ferreira

Na manhã de uma segunda-feira, 11 de junho de 1962, o compositor, músico e arranjador paulistano Oswaldo de Almeida Gogliano saiu de casa, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), para trabalhar na gravadora Columbia e se despediu da companheira com frase aparentemente sem sentido: "Hoje eu não volto". O sentido da frase se fez logo, por volta das 9h daquela manhã, quando o artista passou mal e caiu no estúdio da gravadora. Não voltou mais. Nem à casa e tampouco à vida. Às 9h30m, Gogliano foi oficialmente declarado morto, vítima do terceiro infarto.

Faltavam 13 dias para que ele completasse 52 anos de vida iniciada num dia de São João, 24 de junho de 1910. Autor de biografias de expoentes da música brasileira como o compositor baiano Assis Valente (1911 – 1958) e o cantor fluminense Evaldo Braga (1945 – 1973), o jornalista e escritor baiano Gonçalo Junior reconstitui boa parte dos passos de Gogliano, vulgo Vadico, para mostrar que ele foi mais do que o parceiro do compositor carioca Noel Rosa (1910 – 1937) em músicas emblemáticas como Feitiço da Vila (1934), Feitio de oração (1933), Conversa de botequim (1935) e Pra que mentir? (1937) – a composição que dá nome ao relevante livro recém-lançado pela editora Noir.

O subtítulo da biografia, Vadico, Noel Rosa e o samba, já diz muito sobre o livro, pois, para contar bem a vida de Vadico, é preciso recontar a vida do Poeta da Vila, com quem Gogliano fez sambas e sambas-canção que entraram para a história, eternizando parceria iniciada em 1932 que contabilizaria 12 composições, incluindo marcha feita como jingle publicitário.

Mesmo admitindo com honestidade que algumas passagens da vida pessoal de Gogliano continuam misteriosas ou ao menos nebulosas (caso do grau de alcoolismo do compositor na fase final da vida), o autor cumpre bem a tarefa de perfilar Vadico. Como dito, a intenção é realçar que Vadico foi mais do que o mais inspirado parceiro de Noel (o que já é muito), ainda que, ao fim do livro, paire a sensação de que nada do que Vadico fez após a precoce saída de cena de Noel, em maio de 1937, foi mais importante do que composições que atravessam gerações e modismos musicais como Feitio de oração e Feitiço da Vila.

Contudo, o autor cumpre a função de biógrafo ao relatar a luta de Vadico para se impor como compositor nos espetáculos teatrais dos anos 1930, a relação profissional e fraterna como Noel, a ida em junho de 1939 para os Estados Unidos – país onde Vadico ficaria por 14 anos, trabalhando em Hollywood, em atuação decisiva para a exposição mundial do nome e da ora do compositor Ary Barroso (1903 – 1964) em filmes musicais feitos com visão estereotipada do Brasil – e, sobretudo, a luta para ser reconhecido como parceiro de Noel na volta ao Brasil.

A parte final do livro é ocupada sobretudo pela polêmica iniciada em 8 de maio de 1957 pelo apresentador de TV Flávio Cavalcanti (1923 – 1986) no programa Um instante, maestro! (TV Tupi). No tom sensacionalista que caracterizava os programas que apresentava, Cavalcanti partiu em defesa de Vadico e atacou postumamente Noel – compositor então revalorizado 20 anos após a morte, depois de ter sido esquecido na década de 1940 – por ter vendido alguns sambas da parceria com Vadico para a gravadora Odeon como se os sambas fossem somente dele, Noel.

Mesmo tomando partido de Vadico, Gonçalo Junior expõe os argumentos dos dois lados da briga que passou para os jornais quando o compositor, músico e escritor carioca Henrique Foréis Domingues (1908 – 1980), o Almirante, saiu em defesa de Noel, de quem fora amigo e colega no seminal Bando dos Tangarás. O livro mostra como a briga arranhou a imagem de Vadico, que apenas lutava pelos créditos e pelo recebimento dos justos direitos autorais das composições, e cansou o já debilitado coração do compositor.

Noel à parte, se é que possível dissociar Vadico do Poeta da Vila, Gogliano deixou cerca de 80 músicas, algumas inéditas em disco, inclusive peças de arquitetura erudita. Fora da parceria com Noel, a mais conhecida é Prece (1956), samba-canção feito com o compositor fluminense Marino Pinto (1916 – 1965). Nem por isso, a vida de Vadico deixou de ser movimentada. Em 1959, para ajudar a pagar as contas, ele tocava na carioca Boate Plaza, acompanhando cantor iniciante que imitava descaradamente João Gilberto e que atendia pelo nome de Roberto Carlos.

Ao sair de cena naquela manhã de junho de 1962, Vadico não conseguiu se mostrar maior do que a obra feita com Noel, ainda que o talento de melodista e arranjador refinado fosse inegável e reconhecido no meio musical. De todo modo, a verdade é que quem fez uma melodia como a de Feitio de oração já não precisava fazer mais nada para ter lugar de honra na história da música popular do Brasil. (Cotação: * * * 1/2)

G1
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/biografia-reconstitui-alguns-passos-de-vadico-o-maior-parceiro-de-noel.html

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