Crédito da imagem: João Gilberto em foto de divulgação.

Bossa de João completa 60 anos em 2018 sem nunca ter deixado de soar nova

Mauro Ferreira

Se 1968 foi o ano que nunca terminou em âmbito social, político e comportamental, 1958 foi o ano que nunca terminou na música brasileira. Simplesmente porque 1958 foi o ano da Bossa Nova, a revolução mais importante da música do Brasil desde que o samba passou a ser samba. Bossa que completa seis décadas neste novo ano de 2018 sem nunca ter deixado de soar nova um minuto sequer desde 1958.

Por Bossa Nova, rótulo que designa tanto um movimento quanto uma onda musical que se ergueu no mar da cidade do Rio de Janeiro (RJ) na segunda metade da década de 1950, entenda-se sobretudo a inovadora batida diferente do violão de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, o baiano bossa nova, tal como apresentado por Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) na contracapa do histórico primeiro álbum do cantor nascido em Juazeiro (BA), Chega de saudade, lançado pela extinta gravadora Odeon em 1959.

Quando o LP chegou ao mercado em março de 1959, a revolução já havia sido feita em 1958. Foi João quem burilou desde meados dos anos 1950 – mais precisamente desde 1955 – a bossa que, enfim, apresentou ao Brasil em agosto de 1958, mês em que foi lançado o disco de 78 rotações por minuto com as gravações do samba Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958) e de música de autoria do próprio João Gilberto, Bim bom (1958), espécie de sambaião composto em 1956, pautado por minimalismo lúdico e singelo.

A rigor, João já dera amostra da tal batida diferente ao acompanhar a cantora Elizeth Cardoso (1920 – 1990) em duas músicas do álbum Canção do amor demais, lançado pela gravadora Festa em abril daquele ano de 1958 com repertório inteiramente dedicado à então emergente parceria de Jobim com o compositor e poeta carioca Vinicius de Moraes (1913 – 1980). Mas ainda não era a revolução, feita realmente por João na gravação, em julho de 1958, do disco de 78 rotações lançado em agosto.

Ao sintetizar a batida (do surdo e dos tamborins) do samba no toque do violão, João deu um passo à frente na música brasileira, sem deixar de olhar para trás, para a tradição do próprio samba. João transformou o samba sem deixar de reverenciar o próprio modelo original do samba.

A partir de João, toda uma geração de compositores entrou em cena com uma música mais leve, ensolarada, carioca. Uma bossa que nunca fez grande sucesso popular, mas que se tornou a trilha sonora de um Brasil mais moderno, então em fase de expansão. João Gilberto é a bossa nova. Mas bossa nova também é o cancioneiro de Roberto Menescal, letrado por Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994) com a aura leve que envolve todo aquele repertório da linha sal, céu, sol e Sul.

Bossa também é a coloquialidade das letras de Vinicius de Moraes, poeta que soou lapidar ao perfilar o balançado da imortal Garota de Ipanema em versos feitos para o samba composto por Jobim em 1962. Por causa da bossa, a música do mundo inteirinho ficou cheia de graça quando conheceu a obra de Jobim, cujo primeiro álbum foi lançado em 1963 nos Estados Unidos.

Enfim, a bossa nunca deixou de ser nova. Nunca envelheceu ou soou datada quando cantada e tocada com o devido frescor porque a modernidade da Bossa Nova é atemporal. Assim como a modernidade de um samba-canção de Cartola (1908 – 1980), cuja obra também nunca soou velha. Em 2018, discos e shows vão celebrar o legado mundial da Bossa Nova porque, na música do Brasil, 1958 é um ano que nunca vai terminar.

G1
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