Nova formação do Franz Ferdinand, da esquerda: Dino Bardot, Alex Kapranos, Julian Corrie, Paul Thomson e Bob Hardy (Foto: Divulgação / Cara Robbins)

Franz Ferdinand volta 'mais livre' e renova ideia de ser 'banda de rock que faz dance music', diz Alex Kapranos

O Franz Ferdinand não quer ser só aquela banda escocesa de rock que animava pistas de dança em 2004. O grupo lançou quatro discos, veio sete vezes ao Brasil, perdeu o guitarrista Nick McCarthy, ganhou dois membros e, no quinto disco, "Always ascending", quer animar pistas de dança de 2018. Será que ainda dá?

O Franz mudou e se "libertou" para tentar voltar ao mesmo princípio de 14 anos atrás: "Uma banda de rock cru tocando dance music", como define o líder Alex Kapranos ao G1. O falante vocalista deu um cenário completo do presente e passado do grupo em 4 atos:

- Contou como a saída do guitarrista, que queria fazer um som "convencional", foi um "choque de energia".
- Explicou a polêmica que aconteceu ao vivo na BBC em programa com a primeira-ministra Theresa May.
- Falou da afinidade com Strokes, LCD Soundsytem e a geração que diz "fazer rock de um jeito diferente".
- Falou de sua identificação com a "liberdade" do Brasil e lembrou o relato de uma fã brasileira que teve um affair com o ex-guitarrista.

1 - Novo disco, novo Franz

G1 - Você trocou o Nick e a banda voltou com dois músicos a mais. Ele era tão bom assim, valia por dois?

Alex Kapranos - Não, ele tinha o valor de meio Dino [Bardot, novo guitarrista] e meio Julian [Corrie, novo tecladista]. Mas eu não troquei, foi ele que saiu da banda. Foi como começar outra formação.

G1 - 'Always ascending' lembra os outros trabalhos do Julian [do projeto de synthpop Miaoux Miaoux] e do Philippe Zdar [produtor do disco e membro do duo de house Cassius]. Você planejou isso, pensou em fazer um disco mais dançante e depois os chamou?

Alex Kapranos - A primeira coisa que fiz foi escrever as músicas. Bem antes de pensar em como seria o som ou quem tocaria. Só peguei o violão. Sabe esses “songbooks” dos Smiths, dos Beatles, dos Kinks? São só as letras e os acordes. Pensei na pureza disso: são só músicas boas, e você escolhe como tocar. Foi assim que começamos.

Depois comecei a tocar com o Bob [Hary, baixista] e o Paul [Thomson, baterista]. Aí pensei: vamos fazer para a pista de dança. Escolhemos Julian porque ele é um cara ótimo, grande músico, e entende esse mundo. E também o Philippe Zdar, que tem a experiência de DJ na cena de house da França, entende a pista de dança.

E além da pista, ele entende a emoção da música e o que faz uma banda de rock ser “cool”. Na verdade, esse é um disco cru, quase tudo ao vivo. Cada faixa tem três takes, no máximo. Ensaiamos bastante e fomos lá gravar em seis dias. Usei a filosofia do James Brown: se você não está pronto para gravar uma música em dois, três takes, nem devia entrar no estúdio.

G1 - Você disse que teve uma 'conversa existencial' com o Nick quando ele saiu. Acha que a saída foi boa para a banda? Fez vocês experimentarem mais do que no disco anterior?

Alex Kapranos - De certa forma, ele nos deu um grande presente. [A saída] foi muito estimulante. Foi um choque de energia, como tomar um banho frio que te faz acordar e ficar mais ligado ao seu redor. Sim, tem muita coisa nesse disco que provavelmente não tentaríamos fazer se Nick estivesse na banda. Quando você está junto há muito tempo tudo fica acomodado.

Nick dizia que queria fazer “música correta". Ele estava nessa onda. O que ele chamava de música “correta” eu chamo de convencional. Acho que se ele tivesse ficado, o disco seria menos experimental. Quando ele saiu, nos sentimos muito mais livres para explorar coisas que não exploramos antes.

2 - Franz político?

G1- Sobre a música 'Huck and Jim', o quanto a situação política e social dos EUA te inspirou a escrever?

Alex Kapranos - Eu respondo ao que vejo acontecer. Tem essa cena fantasiosa de ir para a América e encontrar Huck and Jim [personagens de “Huckleberry Finn”, romance de Mark Twain] e contar para eles do NHS [serviço de saúde público britânico]. Pois acredito mesmo que um dos princípios básicos da civilização é cuidar dos doentes, dos pobres, dos mais fracos. E não vejo isso nos EUA hoje.

G1 - Por falar em NHS, como foi aquela ida à BBC junto com a Theresa May? [A banda tocou após entrevista da primeira-ministra, e o baterista usou uma camisa do NHS, que foi vista como afronta à governante, acusada de sucatear o sistema de saúde] Vocês sabiam que ela ia entrar logo antes?

Alex Kapranos - A gente não sabia que ela ia estar no programa até o último minuto. Mas claro que a gente queria fazer aquilo. É engraçado, porque nunca pensei na gente como banda política. Não escrevo músicas para dizer a você o que pensar. O que eu prefiro fazer é apontar e dizer: ei, olha isso, veja o que está acontecendo e forme sua opinião.

3 - Franz, Strokes e LCD

G1- Você leu o livro sobre o rock de Nova York ['Meet me in the bathroom', de Lizzy Graham, sem edição no Brasil], em que você é um personagem?

Alex Kapranos - Li sim.

G1 - Tem uma frase engraçada do Rob Sheffield, jornalista da Roling Stone, comparando vocês às bandas britânicas dos anos 60 que pegaram o rock americano, empacotaram de um jeito inglês e revenderam de volta para os EUA. Você concorda com ele? Acha que vocês fizeram com Strokes e LCD Soundsystem o mesmo que os Rolling Stones fizeram com o Chuck Berry?

Alex Kapranos - [Risos]. Acho que ele falou isso como um elogio, fiquei feliz. Mas não acho que foi isso que aconteceu. A gente se sentia como uma banda de Glasgow, era nossa cena. Tenho muito respeito por aquela cena de Nova York. Estamos agora em turnê com o Albert Hammond Jr.[guitarrista dos Strokes]. Ele está abrindo para nós, está literalmente na sala do lado aqui agora.

Eu me sinto muito próximo deles, mas acho que a gente estava se desenvolvendo como banda ao mesmo tempo. Ambos tiveram o mesmo desejo simultâneo, que era basicamente fazer rock ‘n’ roll de um jeito novo. Talvez eu tenha mais afinidade com bandas como The Rapture e LCD Soundsystem, porque nós estávamos mais no lado “pista de dança” da coisa. Mas os Strokes eram brilhantes.

G1 - Por falar no LCD Soundsystem, há outro trecho legal do livro em que o James Murphy [líder do grupo] toma um ecstasy pela primeira vez em uma festa e tem uma epifania sobre fazer dance music com a bagagem de rock dele. E você se diz influenciado pelo LCD no livro. Você acha que este novo disco tem a ver com essa ideia?

Alex Kapranos - Sim. Acho que nós temos este mesmo princípio e tentamos fazer de um jeito diferente. Nosso primeiro disco e esse novo estão firmados no princípio de uma banda de rock crua tocando dance music.

Mas eles soam muito diferentes um do outro. Você duas ou três decisões diferentes e a coisa inteira fica diferente. Mas o princípio é o mesmo.

E também com o LCD Soundsystem. Acho que nós compartilhamos interesses e desejos similares, mas nossas bandas soam muito diferentes uma da outra. É outra banda que respeito muito.

G1 - Vocês e os Strokes foram, durante o período de 'Last nite' e 'Take me out' o centro de atenção da indústria musical. Hoje as coisas são menores, talvez menos caóticas. Nesta turnê com o Albert vocês conversaram sobre aquele início?

Alex Kapranos - Nunca falei com ele sobre essas coisas. Você deve perguntar para ele. Eu já estive em bandas em diferentes níveis. Este disco parece o maior em 10 anos. As pessoas parecem amá-lo. Mas não tenho controle sobre a reação das pessoas. Nunca fiz um disco pensando: "Esse vai ser grande", "esse vai ser menor". Você só faz e vê o que acontece.


4 - Franz e o Brasil

G1 - Por que você acha que o Franz é tão querido no Brasil? Já ouvi você dizer que é porque a banda veio para cá muito cedo na carreira.

Alex Kapranos - Pode ser isso, mas acho que se a gente tivesse ido cedo com a postura errada, não faria diferença. Acho que postura para tocar combina com a postura dos brasileiros para ouvir música. Quando tocamos, a gente se solta completamente. E essa é a atitude para a vida aí, se soltar. Quando você gosta de algo, não tem restrições, você está livre naquele momento, como eu gosto de estar no palco. Talvez haja essa conexão.

G1 - No último show no Brasil você dedicou 'Take me out' aos Boogarins, banda daqui que abriu a noite. Tem mais coisas brasileiras que você gosta?

Alex Kapranos - Gosto das coisas antigas. Caetano Veloso, Jorge Ben. E de Bonde do Rolê e CSS. Mas acho que não estou muito ligado no que está acontecendo aí hoje. Tenho certeza que tem coisas boas. Talvez você possa recomendar.

G1 - Já que gosta de Bonde do Rolê, o DJ deles, Rodrigo Gorky, produziu a Pabllo Vittar, uma cantora drag-queen que é o maior fenômeno aqui. E no estilo do Bonde, o nosso funk, tem coisas originais para você ouvir.

Alex Kapranos - Preciso fazer isso, deve ser ótimo.

G1 - Não sei se você sabe, mas sempre que se fala no Franz Ferdinand aqui, alguém lembra do artigo que uma fã da banda escreveu em 2011, na revista 'Marie Claire', descrevendo um affair com o Nick. A banda ficou sabendo deste texto? Você sabe que ele faz parte da história do Franz no Brasil?

Alex Kapranos - [Começa a rir antes de a pergunta terminar]. Eu achei muito engraçada. A gente ainda curte rir dessa história até hoje. Se a mulher do Nick também se divertiu, eu não tenho certeza. Mas com certeza nós rimos muito.

G1 - Foi algo discutido na banda na época, como um problema de relações públicas ou coisa assim?

Alex Kapranos - Não tenho ideia de como Nick lidou com isso. E não tenho ideia se há alguma verdade no artigo ou não. Foi uma coisa para ele resolver, não eu. Mas sim, nós ficamos sabendo.

Achei engraçado você mencionar isso. E como eu disse, não faço ideia se é verdade ou não. Na verdade eu faço! Eu tenho uma ideia exata. Mas oficialmente não.

G1 - Você tem ideia, mas não vai dizer qual é a ideia, certo?

Alex Kapranos - Isso [risos].

G1
https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/franz-ferdinand-volta-mais-livre-e-renova-ideia-de-ser-banda-de-rock-que-faz-dance-music-diz-alex-kapranos.ghtml

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