Capa do álbum 'Revolver' (1975), de Walter Franco (Foto: Reprodução)

Engenhosidade da obra 'cabeça' de Walter Franco é exposta em tributo ao compositor

Mauro Ferreira


Walter Franco sempre foi indie mesmo quando tangenciou o mainstreamao ganhar projeção ao defender a fragmentada composição Cabeça na sétima e última edição do Festival Internacional da Canção (FIC), exibida em 1972 pela TV Globo. Cabeça é uma das composições mais vanguardistas deste cantor e compositor paulistano de atuais 73 anos.

Contudo, o ainda pouco conhecido repertório autoral de Franco tem pérolas ainda mais raras e não se resume ao hit underground de 1972 e a algumas canções mais ouvidas pelo chamado grande público, caso de Serra do luar (1981), apresentada por Franco em outro festival – o MPB-Shell exibido pela TV Globo em 1981 – e propagada dez anos depois por Leila Pinheiro por conta da gravação feita pela cantora para o álbum Outras caras (1991). Fato que somente agrega importância ao tributo fonográfico Um grito que se espalha (Scream & Yell), idealizado para reiterar e celebrar a engenhosidade da obra desse cérebro pensante da música brasileira.

Produzido por Leonardo Vinhas, o disco tem lançamento programado para 3 de maio, somente em edição digital, e apresenta regravações de 14 músicas da lavra de Franco, além de Desprendáte, canção inédita – e por isso mesmo alocada como faixa-bônus no álbum – composta pelo colombiano Sérgio González (da banda folk Surcos) com inspiração nas músicas Serra do luar e Respire fundo(1978).

Serra do luar, a propósito, figura no tributo em registro de Tamy, cantora capixaba de forte conexão com o Uruguai, o que justifica a récita em castelhano de versos de Coração tranquilo (1978) ao fim de gravação feita com barulhinhos eletrônicos e com reverência (talvez involuntária) ao registro de Leila Pinheiro.

Feitas por elenco da cena indie latino-americana, com o natural predomínio de artista brasileiros, as abordagens do cancioneiro de Franco no disco Um grito que se espalha resultam (bem) acima da média de tributos coletivos dessa cena contemporânea. Merece menção honrosa a gravação de Canalha (1979) – música de cuja letra foi extraído o título do disco Um grito que se espalha – pelo cantor capixaba André Prando. Há na faixa uma estranheza condizente com a obra de Franco e também um grito parado no ar pela dor que dilacera no campo de batalha da vida cotidiana.


Os tons são distintos. Se Dado Oliveira (da banda fluminense Pessoal da Nasa) situa Pátio dos loucos (1973) na pista de dança, com alguma diluição das intenções do compositor, a banda brasiliense Consuelo evoca intencionalmente em O dia do criador (1979), pelo canto árido da vocalista Claudia Dalbert, o registro original dessa música, feito por Elba Ramalho no primeiro álbum da cantora, Ave de prata (1979).

Fonograma já pré-existente, mas remasterizado para o tributo, a gravação de Mixturação (1973) pelo quarteto paulistano BIKE dá pegada roqueira, stoner, ao tema de original acento psicodélico. O coletivo brasiliense Joe Silhueta recorre justamente à psicodelia ao juntar Cena maravilhosa (1975) e Eternamente(1975) – duas músicas do segundo álbum de Franco, Revolver (1975) – em grandioso registro folk que se encorpa progressivamente com moldura sinfônica. Já o capixaba Juliano Gauche minimiza a música Revolver (1975) para mostrar que há, ali, bonito fragmento melódico.

A propósito, a banda mineira Seamus também expõe a beleza da melodia de Lindo blue (1978), música em que Franco flerta com o blues, gênero recorrente no repertório da Seamus. Outra música pouco conhecida do compositor, Quem puxa aos seus não degenera (2001), ressurge no toque do quinteto paulistano Os Gianoukas Papoulas sem se impor no conjunto do disco.

Parceria de Franco com o pai poeta Cid Franco, autor dos versos musicados pelo filho, Vela aberta (1980) tem a poesia preservada pela banda curitibana Pão de Hamburguer em gravação conduzida pelo toque da guitarra do vocalista Gabriel Fausto. Já Coração tranquilo (1978) dispara em outra direção com a rapperchilena Dadalú com ousadia, mas também com certa perda da delicadeza melódica da canção.

Baterista da banda Do Amor, o carioca Marcelo Callado traz Me deixe mudo(1973) para o próprio universo musical com leveza quase pop e com preservação da arquitetura básica da música. Feito gente (1973) tem mantida a afiada pegada original na gravação do quarteto paulista La Carne sem cair no terreno do cover.

Por fim, o trio uruguaio Buenos Muchachos recria Respire fundo (1978) com guitarras, com a original letra em português e com a estranheza que pauta o cancioneiro do compositor, cujo grito revolucionário é espalhado pelo elenco desse tributo que, embora tenha inevitáveis destaques entre as 15 faixas, nunca mancha a obra do homenageado. De modo geral, todo mundo teve algo bom na cabeça ao celebrar Walter Franco. (Cotação: * * * *)


Portal G1

Outras Notícias

Guitarrista expõe princípios e influências do jazz em DVD de tom pedagógico

Mauro Ferreira"Se você precisa perguntar o que é jazz, você nunca saberá".A frase lapidar atribuída ao cantor e tromp...

Toquinho resume 50 anos de carreira em DVD com show feito com adesão de Tiê

Mauro FerreiraA rigor, Toquinho já está em cena há 54 anos, pois foi como violonista que estreou no palco, em 1964, a...

Chico Amaral, letrista de hits do Skank, se apresenta com parceiros como Ed Motta

Mauro FerreiraPara quem liga o nome de Chico Amaral à (letra de) música, a associação imediata do compositor mineiro ...

Filho de Tina Turner é encontrado morto, diz site

RedaçãoCraig Raymond Turner, filho mais velho da cantora Tina Turner, foi encontrado morto nesta terça-feira (3), em ...