Crédito da imagem: Divulgação / Selo Discobertas

Nara Leão exerce a liberdade do canto em inédito disco ao vivo com show de 1965

Mauro Ferreira


Entre as revoluções estéticas feitas pela Bossa Nova na música do Brasil a partir de 1958, uma das mais importantes é a aceitação de que um cantor podia se expressar com êxito sem ter necessariamente voz opulenta.

Mesmo assim, Nara Leão (19 de janeiro de 1942 – 7 de junho de 1989) sofreu preconceito ao longo dos anos 1960 e 1970 por nunca ter tido a potência vocal de cantoras contemporâneas como Elis Regina (1945 – 1982) e Maria Bethânia.

O fato é que Nara nunca precisou de grande voz para amplificar o sentido de um canto bonito, livre e antenado com o momento do Brasil – como mostram os oito números do show parcialmente recuperado e editado no disco Ao vivo 1965, primeiro dos quatro inéditos títulos da caixa de CDs Nara Leão – Ao vivo anos 60 / 70 / 80, lançada esta semana pelo selo Discobertas.

Nesse show feito em 1965, cuja gravação ao vivo é editada em disco sem dados sobre a data e o local da apresentação, o violão de Nara conduz a artista no canto livre de músicas engajadas. Naquele momento, embora também ainda fosse vista involuntariamente como a "musa da Bossa Nova", Nara personificava a cantora de protesto em movimento iniciado em 1964 com a gravação de um primeiro álbum com repertório que entrelaçou sambas de compositores associados aos morros cariocas com músicas de artistas projetados na primeira metade dos anos 1960 no rastro da Bossa Nova.

Em 1965, ano de polarizações extremadas nas plataformas da música brasileira, Nara jogava no time dos engajados. O repertório do disco Ao vivo 1965 é o reflexo desse posicionamento que tinha sido amplificado quando a cantora capixaba de criação carioca ocupou o palco, a partir de dezembro de 1964, como estrela do teatralizado show Opinião.

Aliás, os registros ao vivo dos oito números do show de 1965 são mix dos repertórios dos álbuns Nara (1964), Opinião de Nara (1964) e O canto livre de Nara (1965) – o primeiro, o segundo e o terceiro na cronologia da discografia solo da artista. São músicas também registradas no disco editado em 1965 com a gravação ao vivo do show Opinião, estrelado por Nara com os compositores João do Vale (1934 – 1996) e Zé Kétti (1921 – 1999) – o que diminui a importância do disco diante dos outros três CDs da caixa.

Uma dessas músicas, inclusive, tinha entrado somente no disco do show Opinião, estando até então indisponível na discografia de Nara. Trata-se de Tiradentes (Ary Toledo e Francisco de Assis), tema em que, ao cantar a saga do mártir da Inconfidência Mineira, Nara aproveita a deixa para reportar os desmandos do governo ditatorial militar instaurado no Brasil em 1964, para júbilo da plateia, que reage com fervor. Lamentavelmente, Tiradentes é a única das oito músicas que não tem a letra reproduzida no encarte do CD Ao vivo 1965.

Em sintonia com o momento, Nara também denuncia a dureza da vida no morro, através do canto de sambas de Zé Kétti como Acender as velas (1964) e Nega Dina (1965), e estende o protesto para o campo ao propagar Sina de caboclo (João do Vale e Jocastro Bezerra de Aquino, 1964).

Enfim, até por também dar voz à ternura machista da canção Minha namorada (Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, 1964), Nara Leão exerce a liberdade do canto no disco Ao vivo 1965. (Cotação: * * * 1/2).


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