A organizadora Eliane Robert Moraes: tudo é alusão no século 19 Foto: Editora CEPE

Livro analisa o erotismo na literatura brasileira

André Cáceres, O Estado de S. Paulo


O leitor desavisado que se deparar com O Corpo Descoberto, seleção de contos eróticos brasileiros organizada por Eliane Robert Moraes, pode esperar algo mais explícito, mas as narrativas breves presentes no livro, de autores como Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Mário de Andrade, nada têm de pornográficas. “É sob o império da alusão que o conto brasileiro produzido antes do Modernismo se arrisca a interrogar o corpo erótico”, adverte a professora já na introdução. 


Livro traz análise do erotismo na literatura brasileira


É assim que em Dentro da Noite, de João do Rio, Rodolfo repara que “Clotilde apareceu decotada, com os braços nus. Que braços! Eram delicadíssimos, de uma beleza ingênua e comovedora, meio infantil, meio mulher – a beleza dos braços das Oréadas pintadas por Botticelli.” O menino Inácio, em Uns Braços, de Machado, também apaixona-se pelos braços de d. Severina, que “eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar”. Como na maior parte dos contos, não há sexo, mas o elemento erótico está sempre escondido nas entrelinhas.


Em meio aos autores consagrados, há apenas uma escritora, Júlia Lopes de Almeida. Em seu O Caso de Ruth, Eduardo descobre que sua noiva fora estuprada na infância, o que nem sua família suspeitava. “Foi há oito anos, aqui, nesta mesma sala… Meu padrasto era um homem bonito, forte: eu, uma criança inocente… Dominava-me: a sua vontade era logo a minha.” Já em Memórias de um Leque, ela narra de maneira original um triângulo amoroso do ponto de vista de um objeto inanimado, o leque de Adélia.


A obra não é dividida em ordem cronológica, mas por um critério temático. Há um capítulo dedicado às “mulheres da vida”, cujo conto mais interessante é o Encontro, de João do Rio, no qual Theodureto reencontra seu primeiro amor, mas descobre que Argemira tornou-se uma prostituta. Ela se recusa a retomar o romance: “Se eu for para você o que sou pra todos – por quem hei de esperar, em quem hei de pensar?” 


Em outro capítulo, todas as tramas abordam assombrações, e Lima Barreto nos presenteia com O Cemitério, curtíssimo mas com a apavorante imaginação de seu protagonista sem nome a andar pelos túmulos: “Estive a ver a fotografia e logo em seguida me veio à mente que aqueles olhos, que aquela boca provocadora de beijos, que aqueles seios túmidos, tentadores de longos contatos carnais, estariam aquela hora reduzidos a uma pasta fedorenta, debaixo de uma porção de terra embebida de gordura.” 


Não podia faltar um capítulo sobre romances homoeróticos, em que se pode destacar Pílades e Orestes, de Machado: “Quintanilha acordava, pensava no outro, almoçava e ia ter com ele. Jantavam juntos, faziam alguma visita, passeavam ou acabavam a noite no teatro.” Há, no total, 53 contos em O Corpo Descoberto, seleção heterogênea e instigante que propõe um olhar reflexivo sobre a maneira como a sexualidade foi explorada na literatura brasileira. Sobre a obra, a professora Eliane respondeu às seguintes perguntas do Aliás:


Quais eram os principais artifícios usados para aludir ao elemento erótico? 


Um deles é o deslocamento, como em um conto do Afonso Arino sobre uma cadeirinha: ele a descreve com uma volúpia literária, o que nos faz lembrar de qual parte do corpo se senta na cadeira. Há uma grande proliferação de metáforas, de falar algo para aludir sobre outra coisa. E há o expediente do não dizer, que é deixar o leitor descobrir. Por exemplo, no conto A Causa Secreta, Machado narra a história de um homem que é sádico, mas é um sadismo por animais. E ficamos aí. Eu mesma, que trabalho com erotismo, levei muito tempo para perceber que poderia haver um outro sadismo ali que não é dito. Você sabe simplesmente que a mulher desse homem vai emagrecendo, ficando pálida, e todas as interpretações atribuem isso a um sofrimento moral.


A única mulher da seleção é a Júlia Lopes de Almeida. Esse terreno era mais inóspito para autoras?


Aquela era uma sociedade muito rígida, num país de matriz católica, uma cultura beletrista que diz que as coisas que vão para os livros têm de ser nobres; então, havia uma dificuldade geral por conta dessa moral cristã e patriarcal. Não que elas não escreveram, mas que as que escreveram tiveram muita dificuldade em publicar.


Machado criticava a literatura erótica. Como ele implementava esses elementos em sua obra?


Não é que ele atacasse o erotismo, até porque essa é uma grande presença em sua obra, mas não queria escrever nada que fosse escandaloso. Qualquer livro dele fala nas entrelinhas, obliquamente. Ele nunca fala nada na lata. A gente lê o conto e depois tem que parar, pensar e entender o que ele fala. O expediente do recato é o da literatura dele. Ele considerava Madame Bovary escandaloso. Era um homem do século 19. É fabuloso que ele use aquela mão que tinha para escrever sobre o erotismo, e o efeito que dá não é moralista, é literário. Grande parte da beleza e do engenho da literatura machadiana está em usar sempre essa forma oblíqua.


Como as mudanças na sociedade durante os 70 anos que o livro cobre influenciaram a representação literária do erotismo? 


O que acontece na sociedade não é um reflexo, mas tem uma reverberação na literatura. Nesses 70 anos, temos a passagem do Império para a República. Do ponto de vista político, é um marco. Mas, para os costumes, há uma passagem mais lenta. A sociedade vai se tornando cosmopolita, a cidade ganha vigor e vai preparando o País para um espírito moderno que, na literatura, vai reverberar no modernismo. Macunaíma foi considerado indecente quando saiu, mas, a partir dos anos 1920, há um relaxamento com relação a isso.


Como é a literatura erótica brasileira se comparada à de outros países?


Se compararmos com a França, por exemplo, que era uma fonte de inspiração para nossos autores, lá existe uma tradição literária erótica imensa, muito maior que a nossa, com o Marquês de Sade no meio do caminho. Mesmo em Portugal há uma tradição muito maior de textos obscenos, que vem desde as cantigas de escárnio e maldizer. No Brasil, isso vai aparecer numa obra como a de Gregório de Matos, que é um autor com vínculos imensos com Portugal. Nossa literatura erotizada, não vou dizer nem erótica, tem uma produção mais tímida.


Portal "O Estadão"

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