Julian Lennon autografa livro de exposição para Samuel Rosa, do Skank, em coquetel de abertura em SP (Foto: Divulgação / Leica Gallery São Paulo)

Julian Lennon expõe fotos em SP e diz que fotografia é 'alívio' após ser 'crucificado' por cantar como pai

Entre a cruz e a câmera fotográfica, Julian Lennon escolheu a segunda opção. Pelo menos por um tempo, o artista, que será sempre conhecido (e "crucificado", segundo ele) por ser filho de John Lennon, se dedica pouco a cantar e muito a uma arte que rende menos comparações com o pai. Aos 54 anos, ele lança em SP duas exposições de fotos - a primeira mostra uma viagem à Ásia e outra retrata amigos famosos nos bastidores de turnês (veja serviço abaixo).

Julian conversou com jornalistas brasileiros sobre o "alívio" que achou na fotografia, sobre a jornada que rendeu a série de fotos em países asiáticos "Cycle", e sobre o trabalho filantrópico na White Feather Foundation. O nome da fundação ("pena branca") vem de uma frase dita pelo pai. Antes de morrer, John teria dito ao pequeno Julian que tudo ficaria bem, e que um sinal disso seria dado por uma pena branca.

Anos depois, em viagem à Austrália na turnê do disco "Photograph smile" (1998, já sem o sucesso dos anos 80 de hits como ""Too late for goodbyes"), um desavisado aborígene ofereceu uma pena branca ao filho do beatle. A história meio surreal, que até lembra uma cena famosa do filme "Forrest Gump", inspirou trabalho sério de ativismo ambiental e social da fundação. A ação se mistura às fotos de "Cycle", muitas em áreas pobres do mundo.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Julian Lennon e a fotografia

"Agradeço por ter encontrado a fotografia. Por trinta anos eu tenho sido crucificado pela indústria musical e por críticos por soar como o meu pai, parecer com meu pai ou com os Beatles. Quando eu achei a fotografia, foi um alívio de muitas formas."

Não que eu tenha desistido da música. Estou dando só dando uma pequena parada. E felizmente eu achei isso (a fotografia) como uma maneira de seguir em frente, assim como a Fundação (White Feather). Claro que na primeira exposição teve ansiedade, ataques de pânico, estresse, nervosismo, porque por três dias eu estava tremendo, achando que iam me crucificar de novo. 'Aí está outro cantor que acha que é um fotógrafo, e blá blá blá."

Conhecer outras culturas em tempos de xenofobia

"É muito triste ver isso acontecer. Um exemplo: no dia do meu aniversário (durante a viagem que rendeu as fotos da exposição), estava em um lugar chamado Kuching (na Malásia, que mistura população malaia, chinesa e de outras origens). É um lugar incomum e muito bonito, que parece um pouco com o Caribe e Cuba de 30, 50 anos atrás.
É um lugar com muitas religiões e culturas de todo mundo. Fiquei maravilhado, pois foi a primeira vez na minha vida que eu andava na rua e literalmente qualquer pessoa que você olhava sorria na sua direção.

"É um lugar tão diverso, e eles conseguiam viver em harmonia e respeitar um ao outro. Isso só mostrou que é algo absolutamente possível, mas a ganância humana e a necessidade de poder matam isso. Mas só espero que pessoas como eu continuem tentando fazer a diferença, de um jeito ou de outro."

Muita gente me diz para ficar fora disso, mas me desculpe, em um nível humano eu não consigo ficar fora. Se eu puder fazer algo para fazer a diferença, eu vou, e danem-se aqueles que dizem o contrário."

O que Julian aprendeu com as fotos de 'Cycle'

"Com esse projeto, vi que, não importa o que aconteça com as pessoas, elas têm muita força dentro delas para continuar, seguirem em frente. É espantoso que, mesmo quando as pessoas ficam sem nada, conseguem sobreviver e serem felizes. Fico encantado com este sentimento de felicidade e amor, que se opõe ao materialismo.
Onde quer que eu esteja, seja nos desertos da Etiópia ou em escolas no Quênia , há sempre um sorriso, algo que nos motiva. Isso faz parte da essência do meu trabalho: entregar algo que ajude, e dar às pessoas que não podem presenciar o que acontece nestes lugares uma ideia da vida de outros povos e outras culturas."

Música x fotografia

"Quando eu estava na estrada como músico, eu costuma fazer turnês mundiais, e a única coisa que eu via eram hoteis, ônibus, palcos... Você nunca via nada além disso. É por isso que isso (fotografia e ativismo) se tornou uma paixão tão grande para mim. Ter começado a fundação White Feather e poder viajar, ajudar pessoas e tentar capturar o momento, me deu a paixão e a vontade de fazer mais, colaborar mais e espalhar essa mensagem."

Apego pela 'pena branca' de John Lennon

"Ainda tenho essa ligação. No livro infantil ("Touch the earth", lançado recentemente por Julian) , o personagem principal é um avião cujas asas são penas brancas. Ter ganhado a pena branca de um indígena, de uma tribo que existe há milhares de anos, depois de o meu pai ter dito que, quando ele morresse, uma maneira de mostrar que todos vamos estar ok seria na forma de uma pena branca... Eu não sou religioso, mas sou certamente espiritual... E isso sem dúvidas foi uma das coisas mais claras que eu já vi mostrando essa conexão, que aparece em todo o meu trabalho."

Serviço: Julian Lennon - Exposições 'Cycle' e 'Rock'n Roll Suite' em SP

Local Leica Gallery São Paulo
Rua Maranhão, 600, Higienópolis, Tel. (11) 3512-3909, São Paulo, SP.
Horário: Terça a sexta-feiras: 11h às 19hs. Sábado: 11h às 16h
Período: de 27/04 a 24/06 (Cycle) e acervo permanente ('Rock'n Roll Suite')
Entrada gratuita

G1
http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/julian-lennon-expoe-fotos-em-sp-e-diz-que-fotografia-e-alivio-apos-ser-crucificado-por-cantar-como-pai.ghtml

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