Créditos das fotos de cena do musical: Marcos Hermes

Musical sobre a Tropicália organiza o movimento com excesso de Caetano

Mauro Ferreira

Saudada por musical de teatro que acaba de chegar à cena no Teatro Santander, na cidade de São Paulo (SP), com Zélia Duncan encabeçando elenco sob a direção de Moacyr Góes, a já cinquetenária Tropicália foi movimento musical que derrubou muros entre 1967 e 1968, diluindo nichos sonoros e sociais em coquetel antropofágico. A queda dos muros permitiu visão menos preconceituosa da guitarra elétrica (e, por extensão, do esnobado universo da Jovem Guarda capitaneada por Roberto Carlos a partir de 1965), da música dita cafona (rótulo criado por elites culturais para ditar as normas do bom gosto e desvalorizar a cultura do povo), da realeza da sanfona e do baião de Luiz Gonzaga (1912 – 1989) e do rock que ignorava fronteiras e, naquela altura, já se alastrava por todo o universo pop.

Por vezes equivocadamente alocada em campo oposto à Bossa Nova, a Tropicália somente integrou o legado revolucionário de João Gilberto à cultura do Brasil sem criar linha divisória que colocasse a bossa acima de outras manifestações musicais. Movimento encabeçado na música pelos cantores, compositores e músicos baianos Caetano e Gilberto Gil, a Tropicália avançou pelo campo das artes plásticas e tinha estética visual criada pelo artista gráfico baiano Rogério Duarte (1939 – 2016), um dos mentores da geleia geral. Espetáculo roteirizado por Moacyr Góes (em primeira incursão do encenador pelo teatro musical), o movimento tropicalista é organizado em cena em torno da obra autoral de Caetano Veloso, rebobinada em excesso no espetáculo, com composições dissociadas da Tropicália.

O excesso é perceptível, por exemplo, na inclusão de músicas como Odara (Caetano Veloso, 1977) – número de interpretação coletiva criado com a intenção de fazer a apoteose final da felicidade possível – e No dia que eu vim-me embora (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968), canção (solada por Zélia no toque do próprio violão) de tom autobiográfico, feita fora da ideologia do movimento, embora esteja no álbum tropicalista lançado por Caetano em 1968.

Anunciada como a estrela do elenco, Zélia Duncan está integrada à cena. Cantora, compositora e instrumentista fluminense que também transitou pelo teatro na década de 1980 (sendo aluna do próprio Moacyr Góes) e que brilhou em recente espetáculo, Totatiando (2012), erguido no limiar entre a música e o teatro, Duncan tem momentos de protagonismo, cantando músicas como Avarandado (Caetano Veloso, 1967) – canção inserida no roteiro após a saudação da Bossa Nova com Caminhos cruzados (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1958) – e dizendo (com propriedade) textos que versam sobre os signos da Tropicália, mas se põe humildemente a serviço do espetáculo sem parecer querer se sobrepor ao elenco juvenil e cheio de garra do musical.

Boa parte desse elenco, justiça seja feita, tem também momentos de brilho individual, caso de Josi Lopes, intérprete do Hino ao Senhor do Bonfim (Arthur de Salles e João Antônio Wanderley, 1923). Com estética por vezes carnavalizante, visível nos figurinos criados por Fabio Namatame para o elenco cantar Domingo no parque (Gilberto Gil, 1967) e na inclusão de frevos e marchas de Caetano, o musical Alegria alegria eventualmente esbarra em vivacidade artificial por conta de coreografias excessivamente frenéticas, por vezes quase caricaturais, como a de Soy loco por ti America (Caetano Veloso, 1968).

Os pontos altos do espetáculo residem na ideologia política que pinta quadro sem retoques de um Brasil que ainda não deu certo – e, nesse sentido, merece aplausos a lembrança de Haiti (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1993), linkada no roteiro a trecho em off de Humble (2017), tema do rapper norte-americano Kendrick Lamar – e no toque vibrante da direção musical de Ary Sperling. Sem seguir a estética musical da Broadway, Sperling cria (com Thiago Gimenes) arranjos calorosos, calcados na batida da percussão afro-brasileira e nas cordas de sotaque também brasileiro do violão e do bandolim.

Mas é claro que há uma guitarra elétrica na formação da banda. Até porque a Tropicália abraça o universo pop internacional e a tradução nacional desse mundo feita pela Jovem Guarda, movimento anterior sustentado pela genialidade de Roberto Carlos, saudado no roteiro com o explosivo rock Quero que vá tudo pro inferno (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1965), número que inclui citação sagaz de Força estranha (1978), música de Caetano lançada na voz de Roberto.

O entrelaçamento de London London (Caetano Veloso, 1971) com Triste Bahia (Caetano Veloso a partir de versos do poeta Gregório de Matos, 1972) mostra que o roteiro alça voo maior quando adiciona tempero próprio à geleia geral tropicalista. Cabe ressaltar a ausência sentida de música de Tom Zé no roteiro que, como ressaltado, gravita além da conta em torno da obra de Caetano Veloso. Com força política, Alegria alegria – O musical alinha bem signos e símbolos da Tropicália sem diluir a sensação de que algo está fora da ordem... (Cotação: * * *)

Título: Alegria alegria – O musical
Direção e roteiro: Moacyr Góes
Direção musical: Ary Sperling
Elenco: Cadu Batanero, Bruno Fraga, Daniel Caldini, João Felipe, Josi Lopes, Ingrid Gaigher, Laura Carolinah, Luana Zenun, Luiz Araújo, Marcos Lanza, Nay Fernandes, Pamella Machado, Patrick Amstalden, Stephanie Serrat, Talitha Pereira e Zélia Duncan
Cenário: Helio Eichbauer
Direção de movimento e coreografia: Alonso Barros
Em cartaz no Teatro Santander, na cidade de São Paulo (SP), de sexta-feira a domingo.

G1
http://g1.globo.com/musica/blog/mauro-ferreira/post/musical-sobre-tropicalia-organiza-o-movimento-com-excesso-de-caetano.html

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