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Literatura de origem negra

CARLOS ANDREI SIQUARA

Enquanto a sociedade brasileira buscava esquecer o recente passado escravocrata, no início do século XX, Lima Barreto (1881 - 1922), por meio dos seus textos, trazia uma voz que denunciava os problemas sociais provocados por três séculos de escravidão, como o racismo. Ao seguir na contramão dos discursos em voga na época, a exemplo do determinismo racial, que propalava a inferioridade das populações negras e mestiças, ele se tornou uma figura incômoda e muitas vezes relegada ao segundo plano.

Nos últimos anos, contudo, são vários os esforços de pesquisadores em compreender melhor a obra do autor, que expressou o seu olhar em contos, crônicas e romances, entres eles o mais celebrado, “Triste Fim de Policarpo Quaresma” (1911). Na esteira desse movimento chega ao público a biografia “Lima Barreto: Triste Visionário”, recém-laçada e escrita pela antropóloga brasileira Lilia Schwarcz.

O livro aprofunda a reflexão entre as questões raciais e a literatura de Barreto, que ganha maior atenção em 2017 em razão de ele ser o principal homenageado da Festa Literária de Paraty (Flip), prevista para começar nesta quarta-feira (26). Lilia é convidada para participar da mesa de abertura do evento e deverá detalhar a pesquisa em torno da produção do título que permeia as diversas fases da vida de Barreto.

Para a biógrafa, ele foi uma personalidade, sobretudo, questionadora, e que cobrava do governo republicano a sua responsabilidade diante do impacto das desigualdades no dia a dia de grande parte da população brasileira. “No momento logo após a abolição da escravatura, ninguém queria falar do passado do país. As pessoas desejavam que o passado ficasse enterrado com o período do império e não se deveria discutir mais isso. Mas ele mostrava o tempo todo como, mesmo após a abolição, as estruturas que vinham da escravidão estavam se perenizando na sociedade. Ele, inclusive, sofre um veto porque esse era um tema que achavam desagradável e a república queria fugir com essa capa de modernidade que sanaria todos os males”, comenta Lilia.

“Ele falava que a república prometeu inclusão social, mas entregou exclusão social”, completa ela.
O engajamento de Barreto com a situação da população negra, portanto, era indissociável do que ele concebia, seja em suas crônicas ou nos textos de ficção. Lilia, por exemplo, recorda uma passagem de “Recordação de Isaías Caminhas” (1909), primeiro romance do escritor, em que pode ser percebida esse tipo de postura. “Há um momento em que Isaías relata ter descoberto a sua cor quando, durante uma caminhada pela cidade grande, ele resolve ir a um bar, mas, quando chega lá, não é atendido. Ele ainda houve que poderia esperar, porque ninguém ali era ladrão”, ilustra a biógrafa.

Ela observa que, inclusive, há algumas correspondências entre as experiências descritas pelos personagens e alguns episódios que aconteceram com o próprio Lima Barreto. “Ele registrava alguns fatos pessoais e, num dos seus escritos, ele diz algo assim: ‘hoje fui à recepção do cinema, não pediram documento a ninguém, mas a mim pediram. Me aborreci”, conta Lilia. O escritor, assim, tornava parte da sua realidade um mote para a sua literatura. O que nem sempre era bem visto, pois, de acordo com a autora, alguns críticos relacionavam isso a uma possível falta de imaginação.

“Ele falava desses temas nos contos, nas crônicas, nas colunas e nos romances porque esse era um assunto que o comovia. Mas isso fez com que ele não tivesse uma boa recepção. Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo, afirmou que Lima Barreto careceria de imaginação porque ele sempre levava a frente os seus estigmas”, acrescenta Lilia.

O que, a seu ver, ele fazia de propósito. Afinal, era do seu interesse evidenciar os problemas e até mesmo provocar um certo mal estar a partir das suas criações.
“Lima Barreto assume o conflito e traz em suas histórias protagonistas que são negros. Outra coisa muito interessante é o cuidado que ele tem com as cores das peles dos seus personagens principais e secundários, procurando dar conta de toda uma diversidade da população. Ele descreve também a textura do cabelo, o nariz e a boca”, pontua Lilia.

O TEMPO
http://www.otempo.com.br/divers%C3%A3o/magazine/literatura-de-origem-negra-1.1501098

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