Alice Caymmi reina na cena trágica de 'Electra' com a corda no pescoço e o sangue das canções
11/07/2019 12:01 em Música

Mauro Ferreira

Com o disco e o show Electra, destaques da cena musical brasileira de 2019, Alice Caymmi voltou a adquirir a relevância artística que ganhou há cinco anos com o álbum Rainha dos raios (2014) e que começou a perder no ano passado ao embarcar em disco mais fluido, Alice (2018), direcionado para o pop genérico do mercadão populista dominado por estrelas como Pabllo Vittar.

Electra – show que chegou ao Rio de Janeiro (RJ) na noite de terça-feira, 9 de julho, após estrear em São Paulo (SP) – promoveu o reencontro de Alice com o diretor Paulo Borges, arquiteto do show Rainha dos raios (2014).

Ambos os espetáculos foram revestidos de forte teatralidade, mas em ambiências e universos musicais distintos. Rainha dos raios se ergueu em cena com a evocação da opulência dos arranjos de Diogo Strausz – produtor do disco homônimo do show – e com repertório pontuado pela heterogeneidade poética e musical.

Com a quentura da cor vermelha na parte inicial, Electra se revelou show amarrado pelo discurso denso do repertório selecionado por Alice com o DJ Zé Pedro para o disco lançado em 27 de maio.

Em Electra, a intérprete já abriu a cena no fundo de poço existencial, corroída pela dor, com a corda no pescoço. Mas foi por essa corda – um dos objetos cênicos visto no palco do Teatro Riachuelo ao lado de faca e de escada – que a cantora foi subindo até emergir do fundo, mais firme nas lendas do caminho solar vislumbrado em Andança (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, 1968), arremate de show intencionalmente sombrio que foi ganhando cores vivas ao longo da apresentação de uma hora.

Musicalmente, a estreia carioca do show Electra confirmou a precoce maturidade vocal que faz Alice Caymmi sobressair em geração de cantoras que, em maioria, se alimentam de conceitos e sonoridades para suprir a anemia vocal.

Não há maquiagem. Nem no rosto nem na voz da artista, capaz de encarar Soneto da separação (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959) a capella, sem microfone e sem sair do tom dramático do show.

O único alicerce da cantora em Electra é o piano virtuoso de Itamar Assiere e, já no fim, a percussão de Filipe Castro. Pote até aqui de mágoa, o coração de Alice no início de Electra bateu forte, descompassado pela dor, para denunciar as hipocrisias sociais em Diplomacia (Maysa, 1958) e o abuso emocional da relação abordada em Como vês (Bruno Di Lullo e Domenico Lancellotti, 2013).

Entre tanta dor e ressentimento, pairou soberana a beleza de Fracassos (Raimundo Fagner, 1975), joia que jazia esquecida no baú da MPB e que Alice Caymmi lapidou em cena com lágrima na voz, ecoando influências do canto de Fafá de Belém – fã assumidamente apaixonada de Alice, não por acaso – e de Angela Maria (1929 – 2018), mãe de muitas vozes.

Ao girar no arco dramático de Electra, Alice Caymmi se mostrou uma cantora limpa de artifícios, mesmo que o sangue das canções esteja esparramado por roteiro que incluiu os fados Solidão (David Mourão Ferreira e Ferrer Trindade, 1955) e Medo (Alain Oulman sobre poema de Reinaldo Ferreira) – este cantado com carregado sotaque português para evocar Amália Rodrigues (1920 – 1999), intérprete original do tema em gravação de 1966 lançada em disco somente em 1997.

Costurado por textos de escritores como Goethe (1749 – 1832) e Lewis Carroll (1832 – 1898), ouvidos na voz irreconhecível de Danilo Caymmi, esse roteiro deu sentido mais pleno à balada italiana Agora (Ancora ancora ancora) (Cristiano Malgioglio e Gian Pietro Felisatti, 1978, em versão em português de Barbara Ohana e João Paulo Cuenca, 2018), uma das poucas músicas realmente boas do álbum Alice (2018), disco também representado no show Electra pela canção A estação (Carlinhos Rufino, 2018).

A propósito, quando cantou Agora, Alice tirou (mais uma) peça do figurino estiloso de Alexandre Herchcovitch. A retirada da peça simbolizou o desnudamento da personagem trágica do show que – a partir de Mãe (Mãe solteira) (Tom Zé e Elton Medeiros, 1976), número cantado por Alice do alto de escada – começou paulatinamente a adormecer culpas e dores em solidão que, no roteiro, a trouxe de volta à tona a partir de Meu recado (Michael Sullivan e Alice Caymmi, 2014), primeiro respiro de Electra, com direito a coro da plateia na letra dessa balada de espírito soul, hit do álbum Rainha dos raios.

Desanuviado o clima, o percussionista Filipe Castro entrou em cena para tocar o tambor que preparou o terreiro em que baixou Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972) com Alice girando, com a faca na mão, em número impactante.

"Venha pro clarão da lua", convidou a cantora, ancorada pelo toque do pandeiro de Filipe Castro, através de verso do samba Pedra falsa (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1985), joia do fundo do quintal carioca.

Outro samba, De qualquer maneira (Candeia, 1971), confirmou a decisão da cantora de sair para a vida nessa parte final de show que versou sobre dor e superação.

Alice Caymmi esteve com a corda no pescoço e, após quase sucumbir no cadafalso do mercado comum da vida humana, ressurgiu soberana para reinar e se consagrar ao fim do único ato de Electra. (Cotação: * * * * *)

 

 

♪ Eis o roteiro seguido em 9 de julho de 2019 por Alice Caymmi na estreia carioca do show Electra no projeto Música das 7, do Teatro Riachuelo, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

 

1. Diplomacia (Maysa, 1958)

 

2. Como vês (Domenico Lancellotti e Bruno Di Lullo, 2013)

 

3. Fracassos (Raimundo Fagner, 1975)

 

4. Soneto da separação (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1959)

 

 

5. Medo (Alain Oulman sobre poema de Reinaldo Ferreira, 1966 / 1997)

 

6. Solidão (David Mourão Ferreira e Ferrer Trindade, 1955)

 

7. Agora (Ancora ancora ancora) (Cristiano Malgioglio e Gian Pietro Felisatti, 1978, em versão em português de Barbara Ohana e João Paulo Cuenca, 2018)

 

8. Pelo amor de Deus (Tim Maia, 1972)

 

9. Mãe (Mãe solteira) (Tom Zé e Elton Medeiros, 1976)

 

10. Areia fina (Lucas Vasconcellos, 2012)

 

11. Meu recado (Michael Sullivan e Alice Caymmi, 2014)

 

12. Iansã (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1972)

 

13. A estação (Carlinhos Rufino, 2014)

 

14. Pedra falsa (Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro, 1985)

 

15. De qualquer maneira (Candeia, 1971)

 

16. Me deixe mudo (Walter Franco, 1972)

 

17. Andança (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, 1968)

 

Portal G1

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