Maria Gadú faz movimento retroativo em show que a reconduz à extroversão luminosa do primeiro disco
04/08/2019 07:40 em Música

Mauro Ferreira

 

Mais do que a retrospectiva da trajetória musical de Maria Gadú, iniciada em 1999 com apresentações improvisadas em circuito de bares, festas e pizzarias, o show da turnê Gadú – 20 anos faz movimento retroativo que reconduz a artista carioca à extroversão luminosa do começo da carreira fonográfica. É nesse instante áureo, vivido pela artista paulistana de 2009 a 2012 no embalo do sucesso do primeiro álbum, que o roteiro está focado.

E a cantora está no caminho certo, a julgar pela calorosa receptividade do público que encheu o Circo Voador para assistir à estreia nacional do show em apresentação iniciada já na madrugada deste sábado, 3 de agosto, na cidade do Rio de Janeiro (RJ).

É preciso voltar no tempo para entender o momento atual de Gadú. Ao lançar o primeiro álbum em julho de 2009, Mayra Corrêa Aygadoux se tornou uma das sensações da música brasileira. Agenda concorrida, músicas em rádios e trilhas de novelas, (redundantes) gravações ao vivo, turnê nacional com Caetano Veloso e numerosas participações em discos alheios desgastaram a música, a imagem e a mente de Gadú.

Foi necessária pausa estratégica para a artista encarar depressão decorrente da voracidade da máquina do sucesso e esboçar recomeço radical com álbum introspectivo e pessoalíssimo, Guelã (2015), que afastou Gadú progressivamente dos holofotes, da mídia e do sucesso.

Além de promover a volta da cantora à cena após dois anos de ausência dos palcos, o show Gadu – 20 anos simboliza retomada de território. Extrovertido, o show resultou em movimento igualmente radical no sentido de que a cantora oferece somente o que o público quer: sucessos digeríveis, próprios e autorais, tocados com banda que quase reedita a formação dos shows da fase áurea da artista.

Entrosados, os músicos Fernando Caneca (guitarra), Maycon Ananias (teclados), Gastão Villeroy (baixo), Cesinha (bateria) e Doga (percussão) armam a cama para Gadú deitar e rolar em sequência de hits.

Da abertura com Baba (Kelly Key e Andinho, 2001) ao longo bis arrematado com Sonhos roubados (Maria Gadú, 2010), tema gravado por Gadú para a trilha sonora do homônimo filme de Sandra Werneck, a cantora engatou sequência uniforme de músicas, geralmente acompanhadas em coro forte e espontâneo pelo público cúmplice.

Não fosse por Semi-voz (Maria Gadú, Maycon Ananias e James McCollum, 2015), música do álbum Guelã incluída no bis, e sobretudo não fosse pelo discurso ativista que pautou números como Axé acapella (Dani Black e Luisa Maita, 2011), o show Gadú – 20 anos poderia ter sido apresentado em 2011.

Com dois álbuns à vista (um disco de inéditas previsto para 2020 e outro comemorativo dessas duas décadas de carreira, no mercado possivelmente ainda em 2019), Gadú fez o show de olho no retrovisor, em ótima forma vocal. O repertório palatável do seminal primeiro álbum, Maria Gadú (2009), foi revivido na íntegra.

Entre acertos como a emoção contida em Dona Cila (Maria Gadú, 2009) e erros como a diluição da tristeza entranhada em Ne me quitte pas (Jacques Brel, 1959), a cantora refez com delicadeza o trilho melódico de Tudo diferente (André Carvalho, 2009), recaiu com Leandro Léo no frenético suingue funkeado de Laranja (Maria Gadú, 2009). reafirmou a pureza comovente de Shimbalaiê (Maria Gadú, 2009), fez novamente desabrochar Bela flor (Maria Gadú, 2009), voltou a amenizar nuances e malícias d'A história de Lily Braun (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983) e, já no bis, entrou no clima de Lounge (Maria Gadú, 2009).

Fazendo do palco um palanque, um altar particular, a intérprete enfatizou versos de Índios (Renato Russo, 2006) – quase em tom messiânico – e promoveu a comunhão de Amor de índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1978), número de clima inicialmente minimalista que ganhou progressiva intensidade.

Enfim, Maria Gadú voltou a ser Maria Gadú neste show comemorativo de 20 anos que parte em turnê pelo Brasil, a partir deste mês de agosto, na sequência da estreia nacional no Rio de Janeiro (RJ). Hábil ao marcar a posição (inclusive política) da artista, o show cumpriu (muito) bem o que se propõe Gadú nesse momento revisionista, voltando a uma página que já parecia virada na história da artista.

Por isso mesmo, a lira dos 20 anos de Maria Gadú soa nostálgica. Resta torcer para que, em um próximo disco ou espetáculo, a cantora equilibre a extroversão pop do show Gadú – 20 anos com as conquistas estéticas da fase Guelã e com a aguçada consciência social de uma artista que, embora tenha sido triturada pela máquina do sucesso, conseguiu se reconstruir para levar adiante trajetória iniciada em 1999 em âmbito quase familiar. (Cotação: * * * *)

 

♪ Eis o roteiro seguido em 3 de agosto de 2019 por Maria Gadú na estreia nacional do show Gadú – 20 anos no Circo Voador, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):

 

1. Baba (Kelly Key e Andinho, 2001)

 

2. Quando você passa (Turu turu) (Francesco Boccia, Gianfranco Calliendo e Ciro Esposito em versão em português de Ricardo Moreira, 2001)

 

 

3. Encontro (Maria Gadú, 2009)

 

4. Bela flor (Maria Gadú, 2009)

 

5. Shimbalaiê (Maria Gadú, 2009)

 

6. Oração ao tempo (Caetano Veloso, 1979)

 

7. Índios (Renato Russo, 1986)

 

8. Escudos (Maria Gadú, 2009)

 

9. Quase sem querer (Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha, 1986)

 

10. A história de Lily Braun (Edu Lobo e Chico Buarque, 1983)

 

11. Lanterna dos afogados (Herbert Vianna, 1989)

 

12. Tudo diferente (André Carvalho, 2009)

 

13. Dona Cila (Maria Gadú, 2009)

 

14. Amor de índio (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1978)

 

15. Extranjero (Maycon Ananias e Cassyano Correr, 2011)

 

16. Axé acapella (Dani Black e Luisa Maita, 2011)

 

17. Laranja (Maria Gadú, 2009) – com Leandro Léo

 

18. Ne me quites pas (Jacques Brel, 1959)

 

Bis:

 

19. Altar particular (Maria Gadú, 2009)

 

20. Lounge (Maria Gadú, 2009)

 

21. Semi-voz (Maria Gadú, Maycon Ananias e James McCollum, 2015)

 

22. Linha tênue (Dani Black, 2011)

 

23. João de Barro (Maria Gadú e Leandro Léo, 2010) – com Leandro Léo

 

24. Like a rose (Maria Gadú e Jesse Harris 2011)

 

 

25. Sonhos roubados (Maria Gadú, 2010)

 

Portal G1

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